Quais os impactos de uma geração em desenvolvimento exposta à inteligência artificial e ao controle de dados?

No último dia 12, comemorou-se o Dia Internacional da Criança na Mídia. A data, estabelecida pela UNICEF, talvez nunca tenha se feito tão importante. Isso porque, com avanço da internet e o surgimento de dispositivos movidos por inteligência artificial cada vez mais interativos, as crianças se vêm imersas em um mundo de conexões e possibilidades aparentemente infinitas e seguras.

 

A gente sabe que a tecnologia tem grande influência na formação das gerações. Nossos avós cresceram ouvindo o mundo pelo rádio. Nossos pais tiveram a TV do seu lado durante grande parte da infância e nós pegamos o surgimento e boom da internet. As crianças de hoje também têm “sua tecnologia”, mas com um grande diferencial: esta responde e conversa com elas e sabe muito sobre suas vidas. Com isso, levantamos a questão: quais os impactos de uma geração em desenvolvimento exposta à inteligência artificial e ao controle de dados?

Quem são os novos amigos da molecada?

             É inegável que essas tecnologias promovem inúmeros impactos positivos na vida das pessoas. Idosos são auxiliados no controle e horários da medicação, pessoas com deficiência utilizam assistentes de voz para controlar suas casas, fazer suas encomendas e ouvir livros, além da praticidade de conseguir informações relevantes em segundos. Mas seus impactos são bem diferentes quando se trata de um ser ainda em desenvolvimento. O Alexa, assistente de voz da Amazon, que está disponível em aparelhos como o Echo, Echo Dot, Fire TV Cube e entre outros é um bom exemplo de tecnologia que tem moldado a geração atual. Por meio de comandos de voz, o software faz buscas, reproduz músicas e interage de diferentes formas, sempre com suas próprias reações. Lançado em 2014 nos Estados Unidos, o sistema é largamente usado por pais que querem promover um primeiro contato entre os filhos e a internet. Porém, psicólogos, tecnólogos e linguistas ainda estão começando a refletir sobre os perigos da inteligência artificial na vida das crianças, especialmente quando essas relações atravessam importantes estágios de desenvolvimento social e linguístico. Muitos pais relataram que os filhos estavam ficando “menos educados” depois de interagirem com o Alexa, e alguns podiam jurar que, com o passar do tempo, o sistema estava conhecendo muito mais as crianças, seus gostos, hábitos e jeitos.

Os riscos da Inteligência Artificial

Mas afinal, qual o real risco da inteligência artificial ao desenvolvimento da criançada? A questão é que, para o registro nos sistemas de serviços como o Alexa, é necessário o fornecimento de alguns dados pessoais. A utilização desses dados pelas empresas a quais são cedidos é a verdadeira incógnita. Como a internet é uma terra praticamente sem fronteiras, esses dados podem cair em mãos erradas a qualquer momento. Um exemplo disso foi a polêmica envolvendo o Facebook no primeiro semestre deste ano.  Acusado de vazar dados de seus usuários para uma empresa com fins políticos, o que foi decisivo para a eleição de Donald Trump nos EUA e a saída do Reino Unido da União Europeia, o CEO da empresa, Mark Zuckemberg precisou se pronunciar formalmente à justiça estadunidense. Quando se trata de crianças em contato com essa exposição e fornecimento, a situação é muito mais delicada. Por crescerem imersos neste universo, no qual elas se vêm “em casa”, sem medo dos riscos que a internet pode oferecer, elas não medem as consequências na hora de dispor informações suas. Isso se torna muito mais sério no momento em que elas interagem por meio de inteligências que respondem a suas perguntas e respostas. Além disso, outro problema é a conexão emocional estabelecida entre essas crianças, cujos dispositivos não podem ou não foram projetados para atender, causando confusão, frustração e até mesmo mudanças na forma como as crianças conversam ou interagem com os adultos, o que, em um estado de desenvolvimento de sentimentos e emoções, pode ser danoso. As mudanças estão acontecendo. As crianças estão crescendo cada vez mais rodeadas de tecnologias que as compreendem, mas os resultados e consequências disso só poderão ser de fato entendidas daqui algum tempo.